AUTO-RETRATO

por Thales Trigo

O auto-retrato é, entre as muitas “modalidades” fotográficas uma das mais intrigantes. Ao longo da história da fotografia ele foi e continua sendo um exercício contínuo, prolongado e de importantes conseqüências. Quando a Flavia Lelis nossa redatora me pediu um texto sobre auto-retrato não pude deixar de pensar no que me disse a brilhante  Mara Freire “o auto-retrato é ainda mais transgressor que o sonho, pois o sonho pode ficar em segredo, o auto-retrato é a quase publicação, é uma mea culpa de nossos  pecados e desejos”. Desde a década de 1840, logo no início da fotografia o francês Hippolyte Bayard (1801-1887), fotógrafo e inventor já produzia imagens positivas a partir da câmera fotográfica. Usava seu sistema para produzir auto-retratos de conteúdo artístico, por exemplo, seu retrato como afogado.

Muito antes da fotografia, desde a antiguidade o auto-retrato era praticado. A indagação sobre “como sou” ou “quem sou” deve ser antiga, talvez desde  a primeira visualização por reflexão do rosto humano. Uma conseqüência natural é o desejo da produção do auto-retrato.

Na história da pintura, grande artistas produziram auto-retratos, Albrecht Dürer (1471-1528) produziu auto-retratos desde sua adolescência,  Van Gogh (1853 – 1890) e Frida Kahlo (1907 – 1954) nos deixaram um registro autêntico de suas angustias e dores.

Na fotografia contemporânea a norte americana Cindy Sherman (1954-) é um expoente.  Desenvolve um trabalho variado e criativo com seus auto-retratos. Para ela o uso de manequins em suas produções não faz sentido, o corpo humano é que pode ser moldado como ela deseja. Ela atua como seu próprio modelo com eficiência máxima.

Sob o ponto de vista da técnica o auto-retrato foi desenvolvido a partir de câmeras de grande formato e longos tempos de exposição. Novos equipamentos e filmes tornaram a produção mais simples, mas o ponto de vista é quase sempre distante. Câmeras em tripé e disparadores de tempo, objetivas normais ou teleobjetivas curtas.

A fotografia digital com suas facilidades; rapidez, custos desprezíveis, facilidade de transmissão e um controle geral sobre a imagem vai, de certa forma, mudar o mundo. Mudar a maneira como as pessoas se enxergam. Nunca foi tão fácil e rápido se auto-retratar. Milhares de  pessoas que há pouco tempo nunca tinham tido a oportunidade de fotografar pulam para uma nova instância, o auto-retrato . Instrumento de auto-conhecimento, projeção de desejos, perpetuação de uma imagem ou apenas brincadeiras, não importa .

 A câmera/telefone digital é o aparato para a mudança.

A perspectiva desses retratos também é inovadora, exagerada. O fotógrafo quase sempre tem a câmera em suas mãos, fotografa a curta distância, inclui parte do mundo à sua volta. Fotografa, apaga, grava, envia, apaga, monta e brinca.

A fotografia digital pode tornar o auto-retrato uma grande brincadeira pessoal e mundial. Se essas imagens forem preservadas ao longo do tempo, o futuro deve ter uma visão mais clara e abrangente do que fomos no passado.

 

Thales Trigo
Novembro, 2007

 

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